Participação Negra no BBB

Menina, você não veio para dançar… porque não dançou? E assim Tiago Leifert, apresentador do reality, rapaz franzino, aparência tímida e cativante, de olhar angelical, estrategicamente compassivo retira a guerreira Lumena do centro da arena do BBB, e a devolve aos domínios do real. Outro palco, onde deverá ser finalmente dilacerada por leões esfomeados e que cuidadosamente incitados aguardam com voracidade a saída dessa presa. Diante da aparente afabilidade demonstrada pelo feitor, à Lumena, mulher forjada a ferro e força pelo negro movimento que lhe criou, nada resta se não duvidar de suas convicções e tentar salvar o possível, do muito que já deixou perder nesse processo. Sob hipnose, expressa incerteza com relação a pertinência de lealdade a si mesma e aos seus ideais. Reconhece o xeque mate do rei e contrariando a sua assertiva trajetória, assume como sua, a culpa por não ter correspondido as expectativas do distinto cavaleiro que a sua frente e num golpe final, lhe  encurrala o corpo no limitado círculo e lhe   realça os erros, lhe atribuindo sem compaixão a total responsabilidade sobre as condições da sua participação. O Moço sem empatia, se vale  da  subjetividade para  justificar de maneira contundente e culpabilizar  Lumena pela sua eliminação do jogo. Emparedada e atingida nos seus mais caros valores, se misturam nesse instante, aos grilhões, chicotes, tronco e Pelourinho a estupenda audiência do programa em tempo real.  Mas como rainha que é,  se ergue majestosa e se nega a  regalar a plateia, com o banquete tão longamente planejado e esperado, e com o qual tão fartamente desejavam se alimentar. De cabeça erguida, lindamente trajada para um dia de gloria, oferece ao expectador imagem inesperada de poder e grandiosidade. Caiu de pé! E o povo preto pode entender o que lhe custou.

Trata-se de mais um Big Brother Brasil… Em uma edição, onde se observa que houve  a decisão da emissora de incluir pela primeira vez a participação dos negros de forma representativa. Foram selecionados candidatos negros singulares, com destaque nas suas comunidades ou no país, com trajetórias significativas. Antes de tudo, pessoas vitoriosas  e cujo sucesso é o resultado de  grande esforço, coragem e determinação para superação dos desafios que a comunidade negra precisa enfrentar para o acesso aos lugares de poder.

O que no início se apresentou como importante momento de emancipação da programação televisiva, pela possibilidade de ter pessoas negras em papeis alternativos na televisão, diferentes dos ostensivamente inferiorizantes aos que eram submetidos através dos tempos pelas emissoras. Logo se tornou, um importante contexto para representação da pratica do racismo   no país. E a comemoração da comunidade negra pela sua maior inclusão, demorou pouco, pois passada a surpresa pela maciça inclusão dos negros na programação, a partir da segunda semana, refeitos do susto a “liga racista para a manutenção dos valores de desigualdades sociais no país” retomou o folego e entrou rapidamente em ação e desde então vem atuando incansavelmente no sentido de fazer valer os princípios estruturantes do racismo historicamente arraigados na cultura Brasileira. E  o que parecia ser uma oportunidade de lazer, crescimento pessoal e entretenimento, logo se tornou espaço de prática de racismo das mais variadas formas contra os participantes. E aos negros que confiaram na proposta de participação como forma de maior projeção social, aumento da visibilidade, respeito e quem sabe tentativa de ingressar no fechado circulo dos milionários, foi dada a experiencia de pesadelo, representado por riscos diversos, como da perda dos seus bens, do capital social e de tudo que de alguma forma possa significar possibilidade de ressurreição pós saída do reality. A experiencia de participação das pessoas negras, nessa atividade, vem sendo usada por boa parte da  população como  oportunidade para linchamento e criticas diversas. Demonstrando que numa sociedade racista como a nossa, não se perde oportunidade para exercer e praticar o racismo de forma cruel e desastrosa. Nesse sentido, consideramos importante nos determos na análise dos acontecimentos do BBB a partir de algumas considerações. A primeira é que embora todos saibam, e o apresentador viva repetindo tratar-se de um jogo. Na prática existe confusão com relação aos limites entre o social e o privado, além de maior penalização dos negros com relação aos seus posicionamentos. Nesse ponto chama a atenção o negacionismo da sociedade com relação aos direitos das pessoas negras exercerem as suas individualidades. Assim quando uma pessoa negra se expressa  sobre qualquer aspecto é comum que a sociedade atribua  o comportamento individual a toda a comunidade negra. O ato de  generalizar e cobrar comportamento dos indivíduos negros, expõe essa população de forma desumana a situação de vulnerabilidade e de sobrecarga com relação a elas mesmo e as que supostamente são representadas. O que as coloca em situação de fragilidade e desconforto e que costuma se reproduzir com frequência no quotidiano.  Durante o programa, como é prática comum no país,  vem-se exigindo das pessoas negras que se comportem de acordo com expectativas diversas e alheias a elas mesmas, com consequente submissão a julgamento continuado dos seus papeis sociais e profissionais,  que com certeza não se encontram no pacote  a ser disponibilizado ao uso dos apostadores do jogo.

Num continuum de desrespeito as suas privacidades, e desconsiderando o contexto diferenciado de stress em que estão expostas as pessoas negras, se cobra delas a imparcialidade com relação aos diferentes sentimentos e as submetem a intenso escrutínio inclusive das suas performances religiosas e escolhas sexuais. Fato que diferente dos outros jogadores do BBB,  coloca os competidores afrodescendentes em situação de desigualdade, ao ter que competir em dois jogos. O BBB e a inquisição para comprovação  de competência individual a que diuturnamente encontram-se submetidas as pessoas negras. Com relação a segunda exposição, nos referimos a condição de incomodo constante que se encontram os negros que ousam ascender aos lugares considerados não seus de direito, como os da academia, e outros de destaque social. Onde as pessoas estão sempre sendo colocadas a prova, com relação as suas competências e legitimidade para a ocupação dos cargos. No caso do BBB, a visão da casa com uma população negra sem precedentes e diante da estranheza causada para a grande população da TV, a cada segundo, cada negro precisa comprovar por a + b se realmente teria a competência para estar ali. Teriam educação bastante? Conseguiriam se encaixar no modelo previsto para os negros? Jogariam o jogo sabendo que teriam peças diferentes das dos outros integrantes? Aceitariam as regras do jogo?

Com relação a esses itens a serem preenchidos apenas pelos participantes negros do BBB, o grupo passou a cometer “erros” considerados imperdoáveis, para uma sociedade racista e esses “erros” são marcadores privilegiadas  para eliminação das pessoas, apesar de certamente não constarem em contratos com a emissora. Um destes erros consta na verbalização da prática do racismo no país. De peso decisivo para o posicionamento dos apostadores, contra a permanência negra no BBB, consta que no contexto do racismo existente no país e naturalmente implícito no jogo, um fato que não se tolera é se falar que se pratica o racismo no dia a dia e em grupos de convivência. Bastante aceitável é admitir que existe racismo em outros grupos, mas é vedado a qualquer um revelar a existência da pratica nos grupos onde   qualquer pessoa negra se encontra  incluída. A negritude do BBB, quebrando a regra do silencio para a boa convivência, cometeu deslize imperdoável, colocou em pauta o racismo e sem pudor desnudou o social e vem pagando caro por isso. O preço é a exclusão, eliminação, esmagamento brutal da imagem e do ser. E o jogador já eliminado, conta as horas sob clima de retaliação. No social as etapas se sucedem, com dinamismo e falsa possibilidade de superação. Nos bastidores a engrenagem conspira para a exclusão dentro das normas e dos bons costumes. E seguindo as regras primorosas da igualdade de julgamento e participação, não se fala  de “cancelamento” do infrator, a eles são associados outros problemas. Problemas da esfera pessoal, autoritarismo, arrogância… falta de diplomacia… E eles não perdiam por esperar!

Jogadores negros, recém saídos das suas comunidades, plenos de auto estima e crentes de que dispunham de todas as cartas sobre a mesa tentarem se guiar pelas orientações explicitas e conforme a crença de que poderiam ser eles mesmos e exercer as suas identidades pelas quais teriam sido incluídos. Desavisados, sabem por  Tiago Leifert , como arremate final, da existência de regras implícitas e que não devem nunca ser quebradas sob pena de cancelamento do infrator. E fora do BBB a liga só computando… Inadmissível é que negros ousem falar alto e em bom tom dos seus direitos, ou admitir sem falsa modéstia algo positivo a seu favor. Mais uma condição para o rechaço dos negros no  BBB e justificativa incontestável para onda  de violência e atos de vingança, da plateia enraivecida que extrapola o contexto do jogo e viola intimidades e atenta contra  vida e patrimônio  das pessoas. Ainda na atuação no programa, exibiram-se os negros pensando, planejando, organizando em horário nobre da TV…  inaceitável para a sociedade racista, uma vez que esses atributos no Brasil tem propriedade e tem cor e de nenhuma forma se alinha a imagem construída  historicamente para os negros no país.

O Sistema ameaça ruir.  A liga se une e vai coaptando novos adeptos! Através do  BBB tal qual documentário “Olhos azuis” de Jane Eliot, como cenas de reprodução, as imagens se conectam a fatos tão empiricamente demonstrado pela pesquisadora. Nesse contexto os “olhos castanhos” desfilam, se bronzeiam, convivem civilizadamente… sabem jogar. Enquanto os “olhos azuis” protagonizam e acumulam para si todos os adjetivos de falta de competência e civilidade. Os olhos castanhos se agrupam e traçam estratégias… Que  os “olhos azuis”  não se identifiquem, nem se conectem, pois agregar e estabelecer parcerias tão naturais e aceitáveis nos outros grupos representaria no contexto da  Liga situação real de fomento a discórdia e estimulo a desunião e discriminação! E a Liga vai fortalecendo… se um negro discorda de outro, manchete neles! Com parcimônia se desfiam em câmara lenta deslizes, traços de caráter, indelicadezas, foco… desfoco… tudo vale! Negro contra o outo. Culpa … saída contravenção! E fora do BBB os grupos se revezam, e se espalham pela sociedade, burburinhos… ameaças, ressentimentos… rachas e reféns… por um lado as pessoas privilegiadas pelo sistema e que exercem com convicção, seus papeis  de reprodução e manutenção da sociedade como ela se encontra as quais não se apresenta conveniente qualquer forma de mudança. E muito naturalmente,  de um a um vão sendo eliminados os negros do BBB. Pandemia prioridades e mortes e vidas …  De outro lado, se alinham o grupo do “tudo pelo social” composto por potenciais parceiros e apoiadores das lutas por direitos e que diante dos eventos tão engenhosamente encadeados, não se negam a emitir pareceres de sobriedade e bom senso e crendo mover-se por  motivos razoáveis, incidentalmente se alinham a cadeias disfarçadas da Liga para a manutenção do racismo, e sem se a devida noção dos seus atos depõem  contra si mesmas, e tomam parte dos enredos e desacreditam e demonizam…

Emparedados, excluídos, demonizados execrados saem sem legitimidade, os que ousaram exercer as suas identidades. Que o digam Aline Matos, Negro Di, Karol com K, Lumena e tantos outros que ao longo do tempo se lançaram na empreitada de participar de jogo. Mas o que acontece? Como? Porque? Para Aline em 2005 se  fala de erro sem perdão… Leifert ao alinhavar o fechamento do paredão em 2021, ressalta que no BBB tem regras implícitas.  E ai vale a reflexão. Onde se encontram essas regras? De certo se encontram devidamente descritas por Jane Eliott em olhos azuis… Sendo assim, quem tem conhecimento das regras, tem maior possibilidade de sair vencedor e quem se submete também. Afinal Leifert  afirma,  se percebeu que precisa mudar,  mude! Ou seja se adapte. Assim você continua. Quem segue fiel a si mesmo, perde a chance! E aí vem ensinamento… De nosso lado nos soam nos ensinamentos, as desigualdades e os desacessos… Como vamos saber jogar se nunca jogamos? Como vamos nos apoderar do implícito, sem a cumplicidade e com o não dito, não compartilhado pelos olhos azuis? Como ganhar? Como não exasperar para não perder? Diante desses acontecimentos a sociedade brasileira  armada pelo preconceito se posiciona. E um após outro, os negros vão sendo excluídos do BBB. A liga eficiente  opera incansável, recruta,  alista, encoraja, patrocina, legitima. Grupos se revezam para a manutenção da sociedade brasileira na conhecida situação de domínio e opressão. Como se não bastassem as exposições internas ao processo! Contra os negros, se armam barricadas movidas num só propósito: Destruir, cassar, castigar, romper, desacreditar. Balbucio e a interpretação do inaceitável, como  gatilho a referencia religiosa, a todos cega e desafia e quase por encanto se soltam mãos e bandeiras a engrossar fileiras contraditórias a  intuição. Armadilhas cuidadosamente preparadas  apanham a todos e  juntos, e de um só ato, se coloca caça e presa num mesmo alçapão.  De fora e  acima, algazarra, regozijo e comemoração!… Era um jogo? Não? Não era um jogo? Acordemos nós, e nos demos conta dos nossos valores, sentidos e representações! Como profecia auto realizável o BBB vai seguindo a sua trajetória e a sociedade vai exercendo a sua modelagem de como o negro deve ser e se portar. Ou como as pessoas devem ser e se portarem…os finalistas são exemplares notáveis e modelos para seguidores. Cada voto que vem de fora, referenda a prática da normalidade do racismo  e a aprovação e a aceitação. Lembra bem a formação de grupo, nas brincadeiras de criança. Você faz parte sim! Se você não fizer o que lhe digo, não vai poder jogar não! Agora sim! Se me desagrada, mais não!

E ao final Leifert, com voz cativante e acolhedora, pergunta a nossa rainha Lumena: Você não veio para jogar? Por que não jogou? E na imagem a se desfazer no monitor sonolento da TV, num coral dos 60%, os que votaram contra a permanência da rainha, respondem a uma só voz: Fácil Assim!

Da nossa voz, engasgada na garganta de Lumena produzimos essa reflexão, para que se recobrem as consciências das pessoas que se associaram de alguma forma a Liga para o próprio linchamento  e que despertas se rebelem contra as correntes do invisível e as armadilhas do racismo! Que reconstituídas e presentes  possam acolher aos seus Aline, Negro Di, Lumenas, Karol, Lucas e tantos outros penalizados por experiencias semelhantes as do BBB e para que juntas se libertem da culpa e da responsabilidade das derrotas que essa sociedade ao longo dos tempos se habituou a creditar as suas trajetórias!

A experiencia do BBB não apresenta inovação, ao contrário reflete realidade constante no cotidiano da comunidade negra, que precisa ser confrontada com posicionamentos enérgicos do movimento popular no sentido de cada vez mais obrigar as autoridades a colocarem em pratica o respeito aos direitos humanos presentes nos instrumentos legais do país e desrespeitados cotidianamente pelo governo e população.   Que possamos tomar a experiencia de constrangimento a que estão expostos os participantes negros do BBB, como  espelho e denuncia das iniquidades cometidas contra as pessoas no Brasil e para que a sociedade adote medidas para mobilização e eliminação do racismo no país! Continuaremos participando de todos os espaços do país, inclusive  do BBB…. sem culpa por não dançar, sem culpa por não jogar. De olhos abertos e  com clareza na percepção de que  a violência  do racismo contra o povo negro  se expressa sob diferentes formas. Conhecida de longas datas  é a pratica de penalizar as pessoas negras por atos que não são da sua responsabilidade e exigir comportamento normatizado diante de situação anormal.  Daí uma boa proposta para Tiago Leifert seria convidá-lo a vivenciar a sugestão de Luís Melodia e “tentar passar pelo que estamos passando” para em seguida dançar e  jogar, conforme ele próprio sugeriu.